20 abril 2006

Simbolismo e Espiritualidade - Artigo

Ao estudarmos a forma como os povos antigos prestavam culto a seus deuses, verificamos que o simbolismo era o fio condutor da fé desses povos. Sejam as sociedades pré-colombianas, ou ainda os Sumérios, ou mesmo povos indo-europeus, percebemos um fenômeno religioso universal o qual defino como: “O desejo dos povos em prestar culto e adoração”. Esse fenômeno é interessante, pois sinaliza que, não importa onde o homem esteja no tempo ou no espaço, existe algo em sua essência que o leva a transcender e a buscar o que não se pode compreender. Hoje essa compreensão é algo que extrapola a teologia.
Tal conceito encontra no que vem sendo chamado de pós-modernidade, o seu respaldo, visto que, com o fracasso da razão em criar um mundo melhor, a espiritualidade vem sendo colocada novamente em questão.
Uma outra curiosidade, é que, esse invisível sempre era representado no campo visível através de animais, fenômenos da natureza, na produção artística ou até mesmo no próprio ciclo da vida. Essa era a base principal do culto dos povos da antiguidade. Eles sempre apoiavam a sua fé nesses símbolos.
O povo Hebreu também tinha seus símbolos de culto, de adoração. Isso me deixa fascinado, pois vejo que Deus (Javé) entra na cultura do povo Hebreu e começa a manifestar-se àquele povo de uma forma que eles entenderiam e assimilariam em sua cultura.O povo Hebreu vivia todo o contexto da antiguidade, ou seja, ele enfrentava suas guerras tribais, possuía escravos, exercitava sua forma de culto e com certeza sofria também a influencia de outras culturas. Não podemos pensar que o povo Hebreu simplesmente foi imune aos desdobramentos culturais que aconteceram naquela região, através das artes, das lendas, e do comércio principalmente e, como foi dito anteriormente, pelos próprios escravos, os quais eram quase sempre frutos de vitórias sobre outras tribos. Pensar na hipótese de “pureza cultural” do povo Hebreu é tratá-lo como superdotados na espécie. A Bíblia mostra-nos bem claro que o povo Hebreu era tão comum quanto qualquer outro povo de sua época, pois mesmo com uma revelação tremenda de Deus, eles ainda assim, em vários momentos de suas história, abandonaram o Senhor e foram atrás dos deuses das nações. Isso vem nos mostrar que foi Deus quem, pacientemente, decidiu usar o povo Hebreu como instrumento de sua misericórdia.
Qual a relação do que foi escrito até agora com o título desse artigo? (Simbolismo e Espiritualidade). Talvez essa seja sua pergunta. Vou respondê-la. Jesus, através da pregação veio anunciar uma nova forma de relacionar-se com Deus. Lembre-se que Jesus entra na história da humanidade de uma forma discreta. Os ofícios do dia-a-dia continuavam a ser realizados à medida que a herança cultural (Lê Goff, 1970.) ia balizando aquelas sociedades. Jesus então, no meio dessa herança, começa a propor uma nova forma de adorar e cultuar à Deus baseada somente no invisível. Jesus rompe com os símbolos religiosos dos Hebreus e começa agora a usar contos (parábolas) e a agricultura, principalmente, para explicar o Reino dos Céus. A mensagem de Jesus não poderia ser mais conflitante para os religiosos do Judaísmo. Agora Ele falava das coisas pertinentes ao Reino de Deus sem usar os símbolos que já eram conhecidos como sendo a referência de Deus. Quando Jesus olha pro templo e diz que não haveria de sobrar pedra sobre pedra, isso causa um tremendo desconforto, pois aquele templo ocupava um lugar de destaque na simbologia daquele povo.
Um exemplo do poder da simbologia é lembrar o ataque ao World Trade Center em setembro de 2001. A queda das torres não mexeu somente com a arquitetura de Nova Iorque. Aquelas torres representavam muito mais para os Estado Unidos, elas eram um símbolo de poder econômico global.
Da mesma forma, foi para os judeus ouvirem as palavras de Jesus sobre o Templo de Salomão. Ao dizer que Ele reconstruiria o Templo em três dias, Jesus cria uma insatisfação ainda maior naqueles ouvintes, que já vinham sendo confrontados por suas palavras. Os Fariseus não podiam conceber como Ele faria tal obra em tão pouco tempo. Veja que eles estavam presos ao símbolo e isso os impedia de compreender o que o Senhor realmente queria dizer.
O distanciamento dessa época, e o convívio com a teologia clássica, não nos deixam perceber a magnitude dessa reforma. Sim, Jesus fez uma reforma de culto. Ao responder à mulher samaritana sobre onde se deveria adorar Ele categoricamente afirma: “Nem em Jerusalém, nem nos montes, mas em espírito e em verdade”. Essa afirmativa estava rompendo com nada menos que dois mil anos de busca pelo transcendente, baseados em símbolos e rituais que foram herdados desde Abraão, visto que Judeus e Samaritanos o reconhecem como patriarca da fé em Javé.
A vida de Jesus e sua mensagem realmente dividiriam a historia ao meio não somente como marco temporal, mas principalmente como forma de se cultuar e adorar a Deus. E ainda, como forma de relacionar-se com o Ele. Jesus apresenta a fé de uma maneira paradoxal, pois Ele a mostra como algo intrínseco ao homem, trazendo para o âmbito da pessoalidade, mas também ensina que essa fé foi dada como um presente de Deus ao homem. Ele não negou suas raízes, pois encontrou na religião dos judeus a sua base de fé e seu chamado ministerial. Porém, a grande revolução está ligada ao culto em si. Jesus abre uma nova porta para que os povos cultuassem a Deus a partir de uma fé simples e não ritualística. Essa mensagem não era compreendida por seus contemporâneos pelo fato de que a exclusão dos símbolos era algo inaceitável àquela sociedade. Como disse anteriormente, os povos da antiguidade tinham suas peculiaridades, mas também tinham seus pontos de contato cultural. Ao propor Jesus, que a adoração fosse feita em espírito e em verdade, ele estava dizendo àquela sociedade que os tempos mudaram, e mudanças requer capacidade de abstração e reposicionamento. A crise que o ministério de Jesus gerou em Jerusalém não era apenas por causa das convicções religiosas dos Fariseus, mas também da dificuldade de compreensão da sua proposta de fé.
Contudo, é importante mencionar que Jesus deixou dois símbolos para a prática da fé cristã. São eles a Ceia (eucaristia) e o batismo. Isso vem reforçar mais ainda a misericórdia do Senhor para com a humanidade, visto que, apesar da nova proposta de culto e de fé, ele ainda sim usou dois símbolos naturais (entrar em um rio e comer pão e tomar vinho) como forma de iniciação – o batismo, e perpetuação – a Ceia, do novo momento da humanidade. Jesus deixa-nos apenas duas referências simbólicas, mas a Igreja Cristã vem através dos séculos elegendo novos símbolos. O mais comum é a cruz, mas há também o peixe, que representou com suas iniciais em grego o nome e o ofício de Jesus como Messias. A Igreja criou para si vários elementos aos quais chamou de sagrados como, por exemplo, os templos, altares, incensários, e até mesmo o dito Santo Graal, que era o suposto cálice com o qual Jesus celebrara a última ceia. Nasce assim toda uma simbologia cristã.
Minha análise me leva a pensar que quanto mais eu tento simbolizar minha fé no natural menos sentido espiritual ela tem, causando assim um desvio de foco na adoração. Ao longo da historia da Igreja existiram vários movimentos que se posicionam como uma forma de denunciar usurpação da fé cristã. Contudo com o passar do tempo passam de perseguidos a perseguidores. Os apóstolos foram perseguidos pelos fariseus, os apologistas foram perseguidos pela liderança romana, os protestantes pela Igreja Romana, os anabatistas pelos luteranos, os moravianos pelos anabatistas, os metodistas pelos anglicanos, os queiquers (Quakers) pelos metodistas e anglicanos, os pentecostais pelos tradicionais, e os neo-pentecostais são ridicularizados pelos tradicionais e também pelos pentecostais.
Atualmente, continuamos a ser expostos a uma simbologia que vem sendo ensinada e praticada pelos cristãos. Essa simbologia está basicamente dividida em três grupos, a saber:
1. Nos quatro elementos (Terra, água, fogo e vento);
2. Nas tradições Judaicas;
3. Em supertições medievais.
Minhas perguntas são essas: Será que estamos deixando que nossos instintos mais remotos voltem a permear a fé? Até que ponto o simbolismo deixa de ser saudável tornando a pratica dos ensinamentos de Jesus apenas uma parte no ritual? Assumir o simbolismo não seria uma forma de negar a proposta inicial de Jesus de culto e adoração? Pela Bíblia sabemos que a forma de culto irá mudar novamente (Apc 21). Mas desta vez será algo definitivo.
O que me chama a atenção é que também está predito, no livro de Apocalipse, que, diante do trono de Deus, haverá muitos povos de tribos, línguas e nações. Da mesma forma que muitos não conseguiam compreender o que Jesus estava propondo enquanto culto, essa próxima mudança não é totalmente compreendia por nossa pequena humanidade. Mas sabemos que ele será nosso Deus e nós seremos o seu povo para sempre. E tenho certeza que isso não será apenas um símbolo, mas uma realidade eterna.

Um comentário:

debora disse...

hahahah vc está farto dos símbolos?

"Símbolos. Tudo símbolos
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?
Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E por que não há de ser?"

Tudo são símbolos, vc também é.

O símbolo é uma linguagem (dança,poesia,arte) o problema é quando quererm transformar o símbolo em um método... esse é o problema...

Jesus trouxe o acesso, mas disse que nós éramos templo do Espírito Santo... o templo é um símbolo...

Ele não aboliu a simbologia é o que eu penso